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Fado da Internet 

Respondendo a um pedido para criar um fado que versasse os tempos de agora, que traduzisse o mundo actual e a nossa vivência e não fosse necessariamente triste pois tristeza já há demais espalhada pelo fado, pedi ao nosso associado Daniel Gouveia que nos brindasse com um fado novo, em estilo tradicional no que respeita à estrutura poética e melódica. Ele foi mais longe do que eu pensei e não foi referir as noites da 24 de Julho ou os concertos de rock ou os grandes desafios de futebol: traduziu para o fado a dimensão da vida da sociedade da informação, como opção dentro de tantas alternativas e criou, letra e música, o Fado da Internet.

Para bem o compreender é preciso ouvi-lo cantado pelo autor. Mas, para já e correspondendo a muitos pedidos de quem já o ouviu, aqui fica, em lugar especial e com os muitos agradecimentos da Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado ao autor, a letra do Fado da Internet. Notem-se as rimas que foram requeridas pelas palavras estrangeiras que traduzem os conceitos da Internet. Note-se o batimento das vogais com o ritmo certo de fado. Note-se também como é uma história corrida no mais puro da essência do Fado.

A música fica para uma próxima versão desta página que possa incorporar música de qualidade, o que pode estar para breve. Mas, embora não chegue à música que o Daniel criou, seguindo o estilo tradicional e sendo os versos regulares, não será difícil cantá-los com alguma outra música conhecida.

Luís Filipe Penedo
Presidente da Direcção da
Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado
 

Fado da Internet 

O Fado p'ra ser castiço 

não é, por isso, 

antiquado.

Deve, até, ser "p'ra frentex" 

e assim é que se 

trata hoje o Fado.

Graças ao computador, 

p'ra se compor 

com grande afã,

digita-se um teclado       | 

e o resultado                 >bis

vê-se no "écran".           | 

 

Pode-se falar de tascas, 

rameiras rascas, 

vida indecente,

mas não se vai à taberna 

e quem alterna 

é a corrente.

Pode o faia ser gingão, 

falar calão, 

andar à crava,

pode a fadista usar xaile,      | 

mas é num "file"                   > bis

que isto se grava.                | 

 

Para que a gralha se evite, 

faz-se um "delete" 

e, a seguir,

se a memória já não vive, 

faz-se "retrieve"

 no mesmo "dir".

"Enter" que estás a agradar, 

convém salvar, 

se a coisa interessa.

Mal a letra se define,         |

com "print screen"             > bis

sai logo impressa.              |    

 

Com o título ninguém teime: 

faz-se "rename", 

nem se discute.

E, se a CPU pendura, 

tudo tem cura, 

basta um "reboot".

Guitarras virtualizadas, 

vozes filtradas 

por fios eléctricos,

o Fado activa circuitos         |

e os seus intuitos                > bis

são cibernéticos.                 |

 

Já não se escreve em toalha 

a boa malha 

que vem à mente.

Esse bom tempo findou-se, 

agora é "windows" 

o ambiente.

O Fado é feito com "bits", 

em "micro-chips", 

mora em "disquette",

mas não deixa de ser Fado.      | 

Está paginado                        > bis

na "Internet".                        | 

Letra e Música: Daniel Gouveia
Maio 1997

 


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