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Manuel de Almeida

Considerado,por muitos, como um dos últimos fadistas castiços, Manuel de Almeida nasceu em Lisboa, em 1922...


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Sardoal na Rota da Tertúlia do Fado - 12 de Outubro

A palavra fado, entre os inúmeros significados que lhe podem ser atribuídos, quer também dizer destino. Para quem acredita no destino sabe que está, à partida, condenado a um desenrolar de acontecimentos impostos por um determinismo a que não pode fugir. Só acreditando na existência de um destino, se pode entender o conjunto de portas travessas percorridas pelo convite formulado aos tertulianos pelo empresário de turismo e restauração, no Sardoal, Francisco de Assis Baptista. Não tendo nenhum dos elementos da nossa tertúlia, qualquer ligação àquela pitoresca e encantadora vila ribatejana, pergunta-se: - «Como nos chegou tal solicitação?»

É precisamente aqui que entram as teias do destino a urdir filamentos de vidas cruzadas em triangulações de diásporas ditadas por acasos. E um deles foi uma ordeira fila de MacDonald num centro comercial de Helsínquia, na longínqua Finlândia. Era neste país que se encontrava o nosso viola, António Viana, a exercer as funções de director de uma empresa farmacêutica. Apesar de existirem outras filas, um outro acaso fez com que, nessa hora e nesse mesmo dia, Aida Baptista, então a cumprir a missão de leitora de português do Instituto Camões, se encontrasse na mesma fila. Atrás do casal, ela apercebeu-se que este exibia como marca da sua portugalidade a indecisão de, já perante a caixa, ainda estar a discutir o que iam comer. Aquela inusitada altercação soou a Aida Baptista como música do seu país. Não se conteve e, logo após o compasso de espera do pedido, meteu conversa com eles.

Nenhum deles ainda hoje sabe explicar o que fez daquele primeiro encontro um amor à primeira vista, mas adivinha-se que, por trás duma empatia tão rápida e espontânea, esteja o feitiço de África que, dum lado ao outro da costa, se encarregou de os envolver na magia de uma amizade que até hoje perdura.
Instalados em Portugal, promoveram encontros periódicos que se encarregaram de fortalecer afectos gerados noutras terras e noutros mares. Foi assim que, o António e a Zé passaram a deslocar-se com frequência à Vila do Sardoal, em especial no Verão, quando a proximidade das águas do Zêzere são um convite à prática de desportos náuticos de que ambos são adeptos fervorosos. A este rio de amizades estavam já ligados outros afluentes, a desaguarem todos na mesma inquietação feita de sonoridades de fado.

Um dia, o destino ditou o convite dirigido a toda a tertúlia para que esta, no seu mapa de deslocações, passasse a averbar uma ida à Quinta dos Moinhos, na Freguesia de Entrevinhas, Concelho do Sardoal.

Depois de um jantar em que foram apreciados os sabores da gastronomia regional, seguiu-se a nossa aguardada actuação. Entre guitarradas e fados interpretados pelos tertulianos, decorreu mais uma divertida noite a que, em certos momentos, com a sua voz pujante de homem do Ribatejo, deu réplica o Ismael Roldão que ali teve também oportunidade de fazer jus aos seus dotes vocálicos. Para que nada escape nos anais das nossas memórias, é importante que se registe a irreverência sempre a despropósito de uma personagem de mistério que, sem o recato do encapuçado, se atrevia a fazer de separador de todas as actuações dos nossos fadistas. Num misto de tribuno eloquente e pastor fanático de uma qualquer seita religiosa, proferia desconexos discursos inflamados, tendo terminado de forma apoteótica com um pungente poema à sua avó. Ressalve-se, no entanto, que este inesperado desvio ao programa em nada beliscou o brilhantismo da nossa actuação.

Mais uma vez se provou que a voz do fado é também a voz da nossa inquietação porque cantado na língua de onde se vê o mar, como diria Vergílio Ferreira.


© 2003 Tertulia do fado, Lisboa, Portugal
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