Voltar a Índice da Galeria
de Texto
Sardoal na Rota da Tertúlia do Fado - 12 de Outubro
A palavra fado, entre os inúmeros significados que lhe podem ser
atribuídos, quer também dizer destino.
Para quem acredita no destino sabe que está,
à partida, condenado a um desenrolar de acontecimentos
impostos por um determinismo a que não pode
fugir. Só acreditando na existência de
um destino, se pode entender o conjunto de portas
travessas percorridas pelo convite formulado aos tertulianos
pelo empresário de turismo e restauração,
no Sardoal, Francisco de Assis Baptista. Não
tendo nenhum dos elementos da nossa tertúlia,
qualquer ligação àquela pitoresca
e encantadora vila ribatejana, pergunta-se: - «Como
nos chegou tal solicitação?»
É precisamente aqui que entram as teias do
destino a urdir filamentos de vidas cruzadas em triangulações
de diásporas ditadas por acasos. E um deles
foi uma ordeira fila de MacDonald num centro comercial
de Helsínquia, na longínqua Finlândia.
Era neste país que se encontrava o nosso viola,
António Viana, a exercer as funções
de director de uma empresa farmacêutica. Apesar
de existirem outras filas, um outro acaso fez com
que, nessa hora e nesse mesmo dia, Aida Baptista,
então a cumprir a missão de leitora
de português do Instituto Camões, se
encontrasse na mesma fila. Atrás do casal,
ela apercebeu-se que este exibia como marca da sua
portugalidade a indecisão de, já perante
a caixa, ainda estar a discutir o que iam comer. Aquela
inusitada altercação soou a Aida Baptista
como música do seu país. Não
se conteve e, logo após o compasso de espera
do pedido, meteu conversa com eles.
Nenhum deles ainda hoje sabe explicar o que fez daquele
primeiro encontro um amor à primeira vista,
mas adivinha-se que, por trás duma empatia
tão rápida e espontânea, esteja
o feitiço de África que, dum lado ao
outro da costa, se encarregou de os envolver na magia
de uma amizade que até hoje perdura.
Instalados em Portugal, promoveram encontros periódicos
que se encarregaram de fortalecer afectos gerados
noutras terras e noutros mares. Foi assim que, o António
e a Zé passaram a deslocar-se com frequência
à Vila do Sardoal, em especial no Verão,
quando a proximidade das águas do Zêzere
são um convite à prática de desportos
náuticos de que ambos são adeptos fervorosos.
A este rio de amizades estavam já ligados outros
afluentes, a desaguarem todos na mesma inquietação
feita de sonoridades de fado.
Um dia, o destino ditou o convite dirigido a toda
a tertúlia para que esta, no seu mapa de deslocações,
passasse a averbar uma ida à Quinta dos Moinhos,
na Freguesia de Entrevinhas, Concelho do Sardoal.
Depois de um jantar em que foram apreciados os sabores
da gastronomia regional, seguiu-se a nossa aguardada
actuação. Entre guitarradas e fados
interpretados pelos tertulianos, decorreu mais uma
divertida noite a que, em certos momentos, com a sua
voz pujante de homem do Ribatejo, deu réplica
o Ismael Roldão que ali teve também
oportunidade de fazer jus aos seus dotes vocálicos.
Para que nada escape nos anais das nossas memórias,
é importante que se registe a irreverência
sempre a despropósito de uma personagem de
mistério que, sem o recato do encapuçado,
se atrevia a fazer de separador de todas as actuações
dos nossos fadistas. Num misto de tribuno eloquente
e pastor fanático de uma qualquer seita religiosa,
proferia desconexos discursos inflamados, tendo terminado
de forma apoteótica com um pungente poema à
sua avó. Ressalve-se, no entanto, que este
inesperado desvio ao programa em nada beliscou o brilhantismo
da nossa actuação.
Mais uma vez se provou que a voz do fado é
também a voz da nossa inquietação
porque cantado na língua de onde se vê
o mar, como diria Vergílio Ferreira.
|