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Manuel de Almeida

Considerado,por muitos, como um dos últimos fadistas castiços, Manuel de Almeida nasceu em Lisboa, em 1922...

 
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1.O FADO E AS COLECTIVIDADES

Eduardo Pereira Marques, intervenção para a Tertúlia do Fado a 24 de Outubro de 2003
Razão prática e razão pura
Gosto de analisar a realidade tendo em conta que o nosso cérebro e a nossa actividade intelectual se dividem em duas partes complementares, que concorrem de modos diversos para o resultado final. Kant definiu intuitivamente que tínhamos uma actividade lógica pura, base da racionalidade e da fria ciência, que agora sabemos sediada à esquerda, e uma lógica prática, empírica, simbólica, social e emocional, que sabemos, com o nosso Damásio, sediada à direita. Todo o progresso se tem feito com a frutuosa participação destas importantes funções. Eternas e espúrias discussões procuram determinar qual é a única lógica importante e portanto legítima, se a científica, se a religiosa, mas ambas são actividades humanas indissociáveis.

Civilizações expressionistas e construtivistas
Também as civilizações se dividem em registos que dão mais expressão a uma das duas lógicas, mas no meio está a virtude, no reencontro do equilíbrio das duas formas de intervenção, se vai fazendo o caminho do progresso. A nível europeu durante séculos tivemos a cultura Celta, que dava predominância às actividades da lógica prática, eram os rituais, a oralidade, as artes expressionistas, o empirismo, a abnegação, que marcaram essa legendária e rica civilização, constituinte europeia e lusitana. Sobre esta, predominou a cultura romana de lógica pura, fria e científica, com o seu metódico desenvolvimento urbanístico, com o importante sistema administrativo e militar totalitário, equalitário e universalista, de cidadania inclusiva, ou como hoje se diz, globalizante.

Da oralidade Celta ao academismo Romano
A nível cultural, sobre uma base céltica de oralidade e poesia popular, livre e empirista, em que mesmo toda a tradição e saber era transmitida por sacerdotes, os “filid”, em mais de 1000 longos poemas, numa simples e acessível base musical modular e contrafeita, de versos oitavados e de rimas regulares, que serviam de suporte mnemotécnico, sobre esta, dizia, a cultura greco-romana desenvolveu uma expressão cultural mais elaborada e académica, cheia de regras e complexidades, em longos e pesados poemas e versos decassilábicos, a que só eruditos em longos anos de estudos assediam.

Dos Jograis à Ópera
Nas zonas mais periféricas, as formas de intervenção cultural mais informal, permaneceram com toda a sua vitalidade, nas zonas mais centrais e eruditas, pelo contrário foi a cultura mais académica e elaborada que predominou. Gales, Irlanda, Galiza e Portugal mantiveram muito da riqueza cultural e convivial celta, permanecendo nos jograis e nas cantigas de amigo, de escárnio e maldizer, com suporte de instrumentos de corda, muitas vezes mais com função rítmica do que melódica, como ainda há um século Bela-bartok e Kodaly, lembravam ser característica da música popular. Nas zonas mais centrais e eruditas, nas cortes, com o reforço da renascença e do belcanto, os trovadores e as cantigas de amor, deram lugar à ópera e outras formas de música dita clássica, de rica linha melódica.

De Lugisbona ao “Fad”
Curiosamente o Deus Celta criador de todas as artes e o canto, era Lugo. Este trazia dois corvos nos ombros, aves tidas pelos seus dotes cantoris e de contrafacção sonora. Na minha fantasia, uma cidade dedicada a Lugo, poderia ser Lugisbona. Teria dois corvos no seu símbolo e acarinharia o canto informal e expressionista. Curiosamente ainda, quando no inicio do século XIX Portugal era governado pelos britânicos exércitos de Wellington, estes entrando em contacto com uma modinha local, original e estranha, diriam que era “a fad”, a que juntaram alegremente a sua guitarra cordiforme, também nessa altura circunstancialmente, com o advento dos movimentos nacionalistas e de afirmação popular, que combatiam, apareceu nas camadas eruditas a preocupação pelo estudo da cultura popular e a designação da canção popular portuguesa como fado.

Da sociedade Barroca à industrialização social
Mas essa cultura de raiz popular, afirmava-se numa sociedade em profunda comunicação e interacção interclassista e a par de simples instrumentos e formas musicais em meios marginais e de lumpen, oportunistas e clientelares, em tabernas e lupanares, encontrávamos os nobres boémios que na sua generosa distribuição de riqueza, de manutenção dessas clientelas, iam divertir-se e manter esses espaços proibidos e mal-afamados, aí deixando sinais e marcas de sua erudição, seja em formas de canto e poesia mais trabalhada, seja com a utilização de instrumentos de corte, tanto a guitarra inglesa do século XVIII, tão querida das damas de delicados dedos, como Bandolins e outros instrumentos melódicos.

Do analfabetismo à instrução musical
Contra esta cultura se desenvolveu o movimento republicano, pela instrução e pela estabilidade profissional e de rendimento laboral, pela administração pública e universal, de dignificação do ser humano. Nas Sociedades de Instrução, que deram origem às actuais Colectividades, procuravam libertar as massas populares da miséria e da ignorância, criando espaços alternativos às tabernas, formas então existentes de convivialidade, mas mais formais e de divulgação da cultura erudita, passando pela instrução literária e musical, fundando muitas das bandas filarmónicas ainda existentes. Mas este ensino formal musical, afirmava-se contra as formas populares e informais de expressão como era o fado, ligado à marginalidade e indigna miséria.

A identidade local e a síntese dos liberais e republicanos globais
Mas no balanço destas duas formas culturais, a sociedade actual reconhece os perigos da industrialização da sociedade, da sua indução de anomia e desânimo, pela perda de controlo sobre o seu meio social, o indivíduo apresenta deficits graves cognitivos, de produtividade, e de saúde (detectados mesmo em marcadores neuro-hormonais, com sobrecarga metabólica, deficits imunitários e desenvolvimento de patologia oncológica), volta a procurar-se com o equilíbrio social e reconhece-se a importância de trabalhar os pólos de identidade local, de enriquecer e reforçar os laços e as redes sociais locais, marcando um equilíbrio contra a pressão massificadora, da globalização económica e mediática.

O fado expressionista, a convivialidade e as redes sociais
E aqui se sente a necessidade de reequacionar o papel das colectividades como forma activa de intervenção e promoção da saúde das comunidades, como pólo de desenvolvimento de diversas actividades culturais locais enriquecedoras, encontrando novos registos de gestão participada e de promoção duma cidadania activa.
Assim numa sociedade mediática e globalizada, o fado e as suas raízes de informalidade, de empirismo e expressionismo, de criação e transmissão de símbolos identitários, por meio duma poesia de intervenção, acessível e popular, de grande atractabilidade para o convívio, encontro e estabelecimento de redes sociais locais, reencontra o papel da música popular como forma de valorizar o optimismo e esperança de todos aqueles que, sujeitos a situações de falta de controlo e violência estrutural, com ele contam para tornar a vida mais suportável e o futuro mais promissor.
Nele a popular Viola, com uma peculiar batida, encontra o seu lugar fundamental na definição da linha rítmica, que a Guitarra Portuguesa com a/o cantadeira/or enriquecem com os rendilhados melódicos, suportes duma poesia rica de reflexões existenciais, conduzindo uma celebração ritual de que todos participam.

 


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