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1.O FADO E AS COLECTIVIDADES
Eduardo Pereira Marques, intervenção
para a Tertúlia do Fado a 24 de Outubro de
2003
Razão prática e razão pura
Gosto de analisar a realidade tendo em conta que
o nosso cérebro e a nossa actividade intelectual
se dividem em duas partes complementares, que concorrem
de modos diversos para o resultado final. Kant definiu
intuitivamente que tínhamos uma actividade
lógica pura, base da racionalidade e da fria
ciência, que agora sabemos sediada à
esquerda, e uma lógica prática, empírica,
simbólica, social e emocional, que sabemos,
com o nosso Damásio, sediada à direita.
Todo o progresso se tem feito com a frutuosa participação
destas importantes funções. Eternas
e espúrias discussões procuram determinar
qual é a única lógica importante
e portanto legítima, se a científica,
se a religiosa, mas ambas são actividades
humanas indissociáveis.
Civilizações expressionistas e construtivistas
Também as civilizações se dividem
em registos que dão mais expressão
a uma das duas lógicas, mas no meio está
a virtude, no reencontro do equilíbrio das
duas formas de intervenção, se vai
fazendo o caminho do progresso. A nível europeu
durante séculos tivemos a cultura Celta,
que dava predominância às actividades
da lógica prática, eram os rituais,
a oralidade, as artes expressionistas, o empirismo,
a abnegação, que marcaram essa legendária
e rica civilização, constituinte europeia
e lusitana. Sobre esta, predominou a cultura romana
de lógica pura, fria e científica,
com o seu metódico desenvolvimento urbanístico,
com o importante sistema administrativo e militar
totalitário, equalitário e universalista,
de cidadania inclusiva, ou como hoje se diz, globalizante.
Da oralidade Celta ao academismo Romano
A nível cultural, sobre uma base céltica
de oralidade e poesia popular, livre e empirista,
em que mesmo toda a tradição e saber
era transmitida por sacerdotes, os “filid”,
em mais de 1000 longos poemas, numa simples e acessível
base musical modular e contrafeita, de versos oitavados
e de rimas regulares, que serviam de suporte mnemotécnico,
sobre esta, dizia, a cultura greco-romana desenvolveu
uma expressão cultural mais elaborada e académica,
cheia de regras e complexidades, em longos e pesados
poemas e versos decassilábicos, a que só
eruditos em longos anos de estudos assediam.
Dos Jograis à Ópera
Nas zonas mais periféricas, as formas de
intervenção cultural mais informal,
permaneceram com toda a sua vitalidade, nas zonas
mais centrais e eruditas, pelo contrário
foi a cultura mais académica e elaborada
que predominou. Gales, Irlanda, Galiza e Portugal
mantiveram muito da riqueza cultural e convivial
celta, permanecendo nos jograis e nas cantigas de
amigo, de escárnio e maldizer, com suporte
de instrumentos de corda, muitas vezes mais com
função rítmica do que melódica,
como ainda há um século Bela-bartok
e Kodaly, lembravam ser característica da
música popular. Nas zonas mais centrais e
eruditas, nas cortes, com o reforço da renascença
e do belcanto, os trovadores e as cantigas de amor,
deram lugar à ópera e outras formas
de música dita clássica, de rica linha
melódica.
De Lugisbona ao “Fad”
Curiosamente o Deus Celta criador de todas as artes
e o canto, era Lugo. Este trazia dois corvos nos
ombros, aves tidas pelos seus dotes cantoris e de
contrafacção sonora. Na minha fantasia,
uma cidade dedicada a Lugo, poderia ser Lugisbona.
Teria dois corvos no seu símbolo e acarinharia
o canto informal e expressionista. Curiosamente
ainda, quando no inicio do século XIX Portugal
era governado pelos britânicos exércitos
de Wellington, estes entrando em contacto com uma
modinha local, original e estranha, diriam que era
“a fad”, a que juntaram alegremente
a sua guitarra cordiforme, também nessa altura
circunstancialmente, com o advento dos movimentos
nacionalistas e de afirmação popular,
que combatiam, apareceu nas camadas eruditas a preocupação
pelo estudo da cultura popular e a designação
da canção popular portuguesa como
fado.
Da sociedade Barroca à industrialização
social
Mas essa cultura de raiz popular, afirmava-se numa
sociedade em profunda comunicação
e interacção interclassista e a par
de simples instrumentos e formas musicais em meios
marginais e de lumpen, oportunistas e clientelares,
em tabernas e lupanares, encontrávamos os
nobres boémios que na sua generosa distribuição
de riqueza, de manutenção dessas clientelas,
iam divertir-se e manter esses espaços proibidos
e mal-afamados, aí deixando sinais e marcas
de sua erudição, seja em formas de
canto e poesia mais trabalhada, seja com a utilização
de instrumentos de corte, tanto a guitarra inglesa
do século XVIII, tão querida das damas
de delicados dedos, como Bandolins e outros instrumentos
melódicos.
Do analfabetismo à instrução
musical
Contra esta cultura se desenvolveu o movimento republicano,
pela instrução e pela estabilidade
profissional e de rendimento laboral, pela administração
pública e universal, de dignificação
do ser humano. Nas Sociedades de Instrução,
que deram origem às actuais Colectividades,
procuravam libertar as massas populares da miséria
e da ignorância, criando espaços alternativos
às tabernas, formas então existentes
de convivialidade, mas mais formais e de divulgação
da cultura erudita, passando pela instrução
literária e musical, fundando muitas das
bandas filarmónicas ainda existentes. Mas
este ensino formal musical, afirmava-se contra as
formas populares e informais de expressão
como era o fado, ligado à marginalidade e
indigna miséria.
A identidade local e a síntese dos liberais
e republicanos globais
Mas no balanço destas duas formas culturais,
a sociedade actual reconhece os perigos da industrialização
da sociedade, da sua indução de anomia
e desânimo, pela perda de controlo sobre o
seu meio social, o indivíduo apresenta deficits
graves cognitivos, de produtividade, e de saúde
(detectados mesmo em marcadores neuro-hormonais,
com sobrecarga metabólica, deficits imunitários
e desenvolvimento de patologia oncológica),
volta a procurar-se com o equilíbrio social
e reconhece-se a importância de trabalhar
os pólos de identidade local, de enriquecer
e reforçar os laços e as redes sociais
locais, marcando um equilíbrio contra a pressão
massificadora, da globalização económica
e mediática.
O fado expressionista, a convivialidade e as redes
sociais
E aqui se sente a necessidade de reequacionar o
papel das colectividades como forma activa de intervenção
e promoção da saúde das comunidades,
como pólo de desenvolvimento de diversas
actividades culturais locais enriquecedoras, encontrando
novos registos de gestão participada e de
promoção duma cidadania activa.
Assim numa sociedade mediática e globalizada,
o fado e as suas raízes de informalidade,
de empirismo e expressionismo, de criação
e transmissão de símbolos identitários,
por meio duma poesia de intervenção,
acessível e popular, de grande atractabilidade
para o convívio, encontro e estabelecimento
de redes sociais locais, reencontra o papel da música
popular como forma de valorizar o optimismo e esperança
de todos aqueles que, sujeitos a situações
de falta de controlo e violência estrutural,
com ele contam para tornar a vida mais suportável
e o futuro mais promissor.
Nele a popular Viola, com uma peculiar batida, encontra
o seu lugar fundamental na definição
da linha rítmica, que a Guitarra Portuguesa
com a/o cantadeira/or enriquecem com os rendilhados
melódicos, suportes duma poesia rica de reflexões
existenciais, conduzindo uma celebração
ritual de que todos participam.
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