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Manuel de Almeida

Considerado,por muitos, como um dos últimos fadistas castiços, Manuel de Almeida nasceu em Lisboa, em 1922...

 
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A História da Construção dos Instrumentos
A Guitarra Portuguesa

A história de construção de instrumentos musicais, começa com a nossa nacionalidade. Já no século XI, os Beneditinos construíam instrumentos musicais nos seus Mosteiros. Os Jograis tinham como função acompanhar os Trovadores e reparar os respectivos instrumentos.
A indústria de construção só começa com os Menestréis, que deram origem à classe de músicos profissionais. Os documentos mais antigos, que dão conta desta indústria em Portugal, datam do século XV. Como curiosidade, no século XVII existiam 10 violeiros em Portugal e, no século XVIII, aparecem os primeiros guitarreiros.


Tendo como testemunhos vivos diálogos que tive com antigos construtores, a diferença entre guitarreiros e violeiros era a seguinte: o guitarreiro construía Violas e Guitarras enquanto que o violeiro só construía Violas. Para que não existam dúvidas, a palavra Guitarra, em Português, refere-se sempre à Guitarra Portuguesa, não havendo um consenso generalizado em relação a esta terminologia. Na minha opinião, o instrumento vulgarmente conhecido por Guitarra Clássica (Viola) deveria ser chamada de Viola Dedilhada. Muitas vezes, em documentos antigos, encontramos a expressão Violão referindo-se à Viola Dedilhada. Normalmente, quem utiliza esta expressão, pretende distinguir este instrumento das Violas de Arame, por ter uma caixa acústica maior.
Cada construtor tem os seus segredos e técnicas bem definidas de construir um instrumento musical. Não é minha intenção ensinar a construir um cordofone, mas sim que o leitor fique com uma idéia de algumas das fases mais importantes da construção.
A primeira preocupação do construtor vai para a escolha das madeiras. Madeiras bem secas e antigas, dão-lhe uma maior garantia no resultado final. Nesta escolha, estão em jogo o timbre, a qualidade e o preço. No entanto, no dizer de um antigo guitarreiro “Quando o artista é bom, até de madeira de caixotes se fazem Guitarras”.


Podem uilizar-se madeiras nobres (pau-santo, ébano, spruce, ácer, etc.), ou madeiras provenientes da flora nacional (nogueira, cerejeira, tília, etc.). No entanto, já vi muito boas violas em nogueira, e péssimas em pau-santo.
A densidade de uma madeira faz com que ela tenha uma função bem definida na construção de um instrumento. As madeiras densas, como o pau-santo, são utilizadas para as costas e ilhargas, e as brandas, do tipo spruce e casquinha, são utilizadas para os tampos. A função de um tampo é vibrar. A função das costas e ilhargas é reflectir o som. Uma escala deve ser feita de uma madeira densa, como o ébano, para que não empene com facilidade. Uma escala empenada faz com que as cordas se afastem dela, dificultando a execução do instrumento.
Quando se corta uma árvore para que as suas madeiras sejam utilizadas na construção de um instrumento, o madeireiro deve ter em conta o chamado “ciclo de Sol”, isto é, a parte da árvore que durante séculos viu o Sol nascer e se pôr.


Os tampos e as costas dos instrumentos são formados por duas réguas de madeira simétricas. Imagine uma régua de madeira com 10mm de espessura, que é cortada ao meio e aberta. As ilhargas (partes laterais do instrumento) são dobradas a fogo e adaptadas a um molde que vai servir de suporte à construção da caixa acústica. O construtor apoia a ilharga num cilindro de metal ou ferro curvo que é aquecido por uma resistência eléctrica ou, tradicionalmente, com o aproveitamento de restos de madeira que são queimados no seu interior. A madeira deve ser molhada para ganhar elasticidade e não partir. Depois das duas ilhargas dobradas, elas são apertadas ao molde, para adquirirem a forma final do instrumento, e são reforçadas com dois tacos que as unem, um para o encaixe do braço e o outro, mais pequeno, para o reforço do remate final. Nesta fase, são colocadas as cintas que acompanham a ilharga em toda a sua extensão, e as travessas (réguas laterais de madeira pouco densa que vão dar resistência ao fundo e ao tampo).


A fase seguinte varia de construtor para construtor. Há quem coloque primeiro o fundo e outros o tampo. O tampo, antes de ser colocado, é previamente aplainado, ficando com uma espessura compreendida entre 2 e 3mm. Nele se abre a abertura musical ou boca, à volta da qual se colocam os enfeites. A posição da boca é determinante para a boa sonoridade do instrumento. Apesar do cavalete (se fôr fixo) ser colado ao tampo, esta fase de construção só é realizada depois deste estar concluído e envernizado.
Também a colocação do braço varia de construtor para construtor: ele pode utilizar a técnica do malhete, que consiste na abertura de um rasgo triangular no taco, idêntico à saliência triangular feita no final do braço. Deste modo, o braço encaixa no taco. Outra técnica é a de colar o taco ao braço, encaixando as ilhargas em dois rasgos que nele feitos. Na parte superior do braço (a cabeça - de pá ou de voluta), são abertos os rasgos para serem colocadas as cravelhas, carrilhões ou o leque.
Como curiosidade, de referir que existiram três escolas de construtores de Guitarras Portuguesas. Tradicionalmente, as volutas tinham uma talha bem definida: voluta em caracol para as Guitarras de Lisboa, em lágrima para as de Coimbra, sendo as do Porto em talha mais elaborada, terminando a voluta em flor, cabeça humana ou de animal. Modernamente, muitas são as Guitarras de Lisboa em que a voluta também é trabalhada, fugindo ao tradicional caracol.
Finalmente a escala: de madeira densa, ela é dividida a partir de uma regra matemática baseada na fórmula raíz de 12 de 2. Normalmente o construtor utiliza uma bitola, para marcar os rasgos onde vão encaixar umas barrinhas de metal, conhecidas por trastes ou pontos.
Muitos são os acabamentos finais que podem ter os instrumentos que passam por cintas de plástico ou madeira que unem o tampo e o fundo às ilhargas, bem como embutidos de madeira, tartaruga ou madrepérola, que têm como única finalidade embelezar o instrumento. Antigamente, o construtor utilizava o grude para colar os instrumentos; modernamente utilizam-se as colas sintéticas.
Depois de bem raspado e lixado, passa-se para a fase final da construção do instrumento: o envernizamento. À moda antiga, o construtor ensebava a madeira e utilizava a boneca de goma-laca para lhe dar brilho. Modernamente, o tapa poros substituiu o sebo, e o verniz celuloso a goma-laca.
Quando o construtor coloca as cordas no instrumento, apesar de todas as normas terem sido cumpridas, a boa ou má sonoridade é sempre uma incógnita. Os construtores de instrumentos muito caros, para manterem a sua imagem de prestígio, muitas vezes preferem destruir o instrumento, se o azar resolve bater à porta.
Modernamente, as madeiras foram substituídas pelos contraplacados. Se tem um instrumento de madeira estime-o. Por muito estragado que esteja, ele tem sempre reparação.

Alguns conselhos práticos:
Se em sua casa existem instrumentos antigos e se não tocar neles, tenha em atenção o seguinte: alivie a tensão das cordas para que a escala não empene, e mantenha o instrumento ao ar. Embrulhar um instrumento é matá-lo. Um estojo foi feito para transportar um instrumento e não para o guardar. Se pretende manter o instrumento dentro do seu estojo, retire-o pelo menos uma vez por mês, e coloque-o num lugar arejado. O sol e a humidade são grandes inimigos, o porta-bagagem do seu automóvel também o é. Não deixe o seu carro ao Sol, com o seu instrumento musical lá dentro. Se viajar de avião alivie completamente a tensão das cordas.
A propósito de cordas, não se esqueça que elas não são eternas. Se pretende mudar as cordas a um instrumento musical, substitua uma de cada vez. Tornou-se chique os guitarristas não cortarem os excedentes de corda que ficam, depois de passarem pelos afinadores. Aqueles 10 cm de aço que ficam espetados na pá do braço, estragam o estojo ou o saco e são extremamente perigosos: imagine uma criança que por curiosidade se aproxima de si e espeta uma destas cordas numa vista...
Se transpira das mãos, limpe as cordas do seu instrumento, com uma flanela ou camurça, quando acabar de tocar.

Lisboa, Março de 2003

Nota: Veja em Galeria de Imagens, fotografias de construtores de instrumentos e rótulos de guitarreiros.

por José Lúcio Ribeiro de Almeida

 


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