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Considerado,por muitos, como um dos últimos fadistas castiços, Manuel de Almeida nasceu em Lisboa, em 1922...

 
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A Reinvenção da pátria no Fado da diáspora

por Aida Baptista

Quando a minha amiga Zé Viana me convidou para participar nesta tertúlia, eu aceitei o convite e só depois me dei conta da insensatez da minha decisão. Pediu-me que falasse da situação do fado na diáspora canadiana e deparo-me agora com uma plateia que sabe toda ela muito mais de fado do que eu. Começo, portanto, por vos confessar que não toco qualquer instrumento, não canto (nem sequer no duche, como a maioria das pessoas) e a minha formação musical quedou-se pelas aulas que faziam parte da estrutura curricular de quem na minha geração frequentou os anos de escolaridade necessários para poder ingressar numa universidade. Para além disso, a minha relação com a música resume-se à fruição que dela retiram todos os que se permitem trabalhar ou descansar com um fundo musical que pode variar de género, consoante o trabalho que estão a fazer ou o estado de espírito em que se encontram.

Ao longo da minha já longa carreira profissional, a música nunca foi propriamente alvo de qualquer pesquisa específica a não ser a que, por força de uma época estudada, se prendia com o enquadramento do pensamento e mentalidade dessa mesma época. Assim, tudo quanto possa aqui hoje dizer, não merece a avaliação que é dada a qualquer investigação de carácter mais profundo, mas é tão só o resultado de um olhar crítico e atento de quem viveu durante 5 anos, de forma muito intensa, a diáspora por dentro. Nesse sentido e só nesse, devo dizer que sou uma espectadora perspicaz e interessada por todo o tipo de manifestação que indicie um conjunto de referências levadas do espaço berço - que cada um deixou ao emigrar - e que tenta perpetuar pelos diversos ancodouros a que arrimou. Não esperem, portanto, que eu desenvolva uma qualquer teoria sobre o fado que se canta na diáspora. Posso apenas dizer-vos que por terras da diáspora canadiana se canta o fado. Acrescentarei: canta-se muito e canta-se bem! A comprová-lo, basta via internet dar um salto à agenda comunitária da imprensa local de expressão portuguesa para nos depararmos com as mais variadas e repetidas noites de fado organizadas praticamente todas as semanas. Impõem-se já duas perguntas: Onde se canta o fado? Quem canta o fado?

Antes de vos dizer onde se canta o fado, permitam-me que vos forneça alguns dados que vos ajudarão a situar no contexto a que me refiro. O Canadá, como é sabido, é o segundo maior país do mundo. A província do Ontário, com a capital em Toronto, é a que tem maior densidade demográfica. Foi também nesta província que se concentraram os cerca de 300 000 portugueses de uma comunidade avaliada em quase meio milhão, entre portugueses e luso-canadianos. Não se admirem, portanto, se vos disser que só no Ontário há para cima de uma centena de clubes e associações portuguesas, sediando-se mais de trinta só em Toronto.

Ser membro de direito de um grupo radicado em terra estranha, obriga a resolver situações diárias de conflitualidade para consigo próprio, ultrapassar resistências, absorver padrões de conduta que, à primeira vista, parecem incompatíveis, numa aprendizagem tanto mais célere quanto maior é o sonho de um futuro que se quer recriado. Foi para responder a este tipo de situações que desde cedo se formaram os primeiros clubes e associações que, como não podia deixar de ser, passaram a traduzir a necessidade de aqueles que emigram se reunirem pela proximidade de origem, como se a voz da geografia constituísse ela própria uma nova linguagem. Não nos admiremos, portanto, que continentais se tenham juntado a continentais e ilhéus a ilhéus. Mas tal como os continentais não formam um todo e se dividem por regiões, também os ilhéus buscaram a vizinhança de pessoas da mesma ilha. E assim temos um proliferar de associações, tantas quantas os marcos geográficos que nos definem. Se a matriz comum é ser-se português, não podemos ignorar que o rojão é minhoto, a açorda é alentejana e a alcatra é terceirense.

Chegados aqui tenho que introduzir um dado novo: de entre todos estes portugueses, 70% são de origem açoriana e, entre os açorianos, a maior percentagem é da ilha de S. Miguel. Não tendo o fado propriamente uma raiz açoriana, e sendo a chamarrita, a charamba e a sapateia, os registos melódicos mais característicos deste arquipélago, como entender, então, que haja um público cada vez mais predisposto a ouvir fado? A explicação, à falta de outra, só se pode encontrar na universalidade da música como única linguagem pacificamente aceite independentemente das tradições dominantes numa determinada região. Por isso, Luciana Machado, por exemplo, de origem açoriana, é uma das vozes mais conhecidas e reconhecidas na Comunidade de Toronto, tendo sido há bem pouco tempo alvo de uma justa e merecida homenagem.

Referida que foi uma das vozes do fado, tentarei então satisfazer a curiosidade de quem se mantém ainda suspenso da resposta à pergunta: Quem canta o fado?

Um primeiro grupo é aquele que pode ser considerado o responsável pela difusão e manutenção do fado como elemento vivo por terras da diáspora: pessoas que emigraram numa fase já adulta e quase sempre com alguma experiência pessoal ou familiar ligada ao fado. No fundo, consideram-se portadores de um testemunho que se sentem obrigados a transmitir como um prolongamento da pátria que se propuseram cumprir noutras paragens. Se para nós este grupo é fácil de entender à luz de um mercado da saudade que insiste em preservar todas as referências que carregou na bagagem, o mesmo se não poderá dizer de quem nasceu já em terra alheia e tem como língua materna o inglês que, como sabemos, não é língua em que se cante o fado. Por isso, cada ano que passa, não deixa de me surpreender por haver sempre estudantes de língua portuguesa a fazerem as suas apresentações sobre o fado e sobre a maior intérprete de sempre do fado - Amália Rodrigues. E há também quem continue a escrever 'A minha experiência com o fado começou desde que eu nasci. A minha mãe cantava sempre fados enquanto fazia os trabalhos de casa. Enquanto lavava a roupa, preparava a acomida ou lavava a loiça, cantava. Quando eu era novinha, achava as canções muito tristes, e algumas faziam-me chorar. Ao longo dos anos, comecei a gostar de fado. Mais tarde, comecei a cantar fado também'. Janet Silveira, in Origens, Maio 2003

Quase apetece dizer que a diáspora mais não é do que uma caixa de ressonância de tudo quanto acontece no país de origem. À semelhança do que se passa em Portugal onde cada vez há mais gente nova a interessar-se por fado e a cantar fado, também na diáspora encontramos, cada vez com mais frequência, gente nova a querer entrar pelos caminhos do fado. Em alguns casos, gente muito nova mesmo. Falo-vos, por exemplo da Verónica: 12 anos, nascida no Canadá, ascendência cruzada de pai português e mãe de alma moçambicana. Como a Janet, o gosto pelo fado foi bebido nas referências musicais do ambiente familiar, num processo em que a memória continua a ser o nosso vínculo com o tempo. Qualquer que seja a relação de pertença a estabelecer com o novo espaço, quase sempre nos comportamos como um rio, ou seja, devolvemos a jusante o resultado de tudo quanto foi recebido e depositado no percurso de crescimento a montante. É óbvio que nesse percurso se vão incorporando novos ícones nem sempre culturalmente bem aceites e vistos, na maioria das vezes como intrusos. O segredo estará em saber conciliar inovação e tradição na proporção exacta da coabitação pacífica entre passado e presente.

O processo de integração é sempre doloroso: implica rupturas e cortes com o passado, por muito que se insista em manter a ponte entre as duas margens. Mas também é verdade que quanto é maior a necessidade de nos tornarmos iguais, mais forte é o sentimento de nos mantermos diferentes, por mais prolongados que sejam os banhos de aculturação em que nos mergulham. Condenados a verbalizar silêncios em malabarismos gestuais, o fado foi a voz da nossa inquietação, um dos elementos identitários a marcar a diferença.

Ambiente intimista, luzes apagadas, velas acesas, silêncio que se vai cantar o fado! De olhos fechados, canta-se o fado. De olhos fechados, ouve-se o fado. Voamos para onde quisermos nas asas de uma viela da boémia mais escondida dum bairro de Lisboa porque o fado é sempre a reinvenção da Pátria ausente no gemido de uma guitarra.
 


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